Marcha da Vida

Felizmente os nossos jovens têm uma infinita e oceânica distância entre a sua realidade e o holocausto. Já nós, pais, fomos permeados constantemente por esse fantasma de imagens não ditas, conversas não faladas, atrocidades nunca reveladas. Um silêncio nefasto indigesto, que eu mesmo muito criança sabia que esse era um tema permanentemente velado em luto de sombras e incompreensões junto aos mais velhos. Queremos que nossos jovens vivam o que nós vivenciamos ou ainda os assassinados e/ou sobreviventes? A Resposta é clara: Não.

Queremos sim, que nossos jovens saibam que tais horrores são possíveis. Unicamente pelo fato de serem judeus eles poderiam ser cativos sem cometimento de nenhum crime, vitimados, mesmo que fossem participativos, abertos, integrados, verdadeiros “cidadãos do mundo”, prêmios Nobel, nas respectivas sociedades em que viviam. O fato de serem judeus lhes dava pecha da morte. Ao longo de 3000 anos de história, saímos, fugimos e fomos expulsos da Pérsia, do Egito e também da Alemanha... E que não houve, nos últimos 3000 anos de história 100 anos sem perseguições a nós judeus.

Mostramos aos jovens que tudo isso mudou, ressurgimos como povo, a existência exitosa e vitoriosa de Israel pôs fim a uma inacabada insegurança pela qual passamos como povo.

Se hoje Israel derrama sobre os judeus da diáspora uma dignidade, um manto de proteção além, claro de uma possibilidade de vida, para os jovens “antes” da Marcha isso lhes parecia dado graciosamente, uma concepção da natureza, algo que lhes caia no colo, sem o qual não houvesse grande sacrifício, nem muitos por quês ou os por quês por tão absurdos e abstratos, inconcebíveis.

“Pós” marcha os jovens repensam tais conceitos, identificam sua própria pessoa com o passado, com a situação atemporal da história de nosso povo, com necessidade imperiosa da existência de Israel para nossa continuidade e sobrevivência. Entendem que isso só é possível se os judeus estiverem juntos, como foi na criação de Israel e que modernamente não é só responsabilidade do cidadão israelense manter essa dádiva de proteção, isso faz parte da obrigação de todo e qualquer judeu. Faz parte da diáspora e do ser judeu. Aqui entra claramente o papel do “Fundo Comunitário” ao reafirmar a centralidade de Eretz Israel. Aliás, tais preceitos condutores da razão se aplicam também a nós adultos que fizemos a marcha.

Também a todos nós adultos ficou óbvio o desejo de que nossos filhos tenham essa experiência, na certeza de que hoje somos muito menos herdeiros de nossos pais do que devedores dos nossos filhos para mantermos as nossas tradições e para tanto temos que efetivamente assumir com trabalho e contribuição as nossas rédeas.

Sobram e transbordam ainda na viagem os efeitos colaterais, que dentre outros, eu poderia citar: Que para vivermos aquelas fortes emoções é bom estar em grupo. Que os judeus dos mais diferentes locais do mundo são tão iguais, que os jovens, em especial, ao se integrarem com outros tantos jovens têm possibilidades mais amplas de continuarem a ser judeus, que a nossa trajetória singular merece ser vivida, lembrada, contada e respeitada. E, para não me estender mais, digo algo que fica muito evidente na viagem, ao sair da Polônia para Israel, que mesmo das cinzas, sempre haverá esperança de um pleno e virtuoso renascimento.

Nilton Serson

 

O Dr. Nilton Serson é advogado, professor universitário e pai de dois filhos de 15 e 18 anos. Ativista do Fundo Comunitário há 21 anos, foi nomeado presidente em Março de 2008.

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